Resenha #24 - Mar da Tranquilidade, Katja Millay


Em Mar da Tranquilidade, Katja Millay nos traz uma história linda, capaz de despertar no leitor todos os tipos de emoções. E comigo não foi diferente. Antes de qualquer coisa, quero pontuar que eu não imaginava que a personagem fosse ser como ela é, em relação à sua aparência. Ela se veste com um "visual prostituta" com o objetivo de afastar as pessoas, que por sinal é alcançado, em sua maior parte. O fato de eu ter me surpreendido com suas roupas me fez pensar se eu não estava concentrada em um estereótipo de menina frágil e que deixa transparecer que o é. Mas obviamente o que vemos por fora nem sempre é o que existe no interior, e com essa surpresa me fiz um lembrete mental de praticar mais a já tão conhecida frase não julgue um livro pela capa, que nesse caso se aplica aos humanos.

Ao longo do livro existem algumas frases no meio do texto, por vezes até parágrafos inteiros, que vão nos dando uma pista sobre o que aconteceu com Nastya (nome de origem russa) dois anos e meio atrás, que a fez parar de falar, mudar de cidade e se sentir destruída. Na nova cidade ela adota o novo visual no colégio e mantém todos afastados, mas acaba sendo atraída à um garoto que parece tão isolado quanto ela, Josh. Ele perdeu todos aqueles que amava: a irmã, a mãe, o pai, a avó. Restou apenas o avô,   que está doente e logo deve falecer. Portanto, estar perto de Josh Bennet é mais ou menos como estar perto da morte. Para ele, a única parte que talvez seja boa no fato de perder seu avô é que ele não terá mais ninguém que possa perder, então nunca mais terá que passar por toda essa dor novamente. Mas é claro que ele não esperava que uma certa garota de nome russo entrasse em sua vida e mudasse essa constatação.

Nastya escreve, todas as noites, três páginas e meia sobre o que aconteceu no dia em que sua vida foi destruída, o dia em que ela foi morta. É isso ou ser atormentada por pesadelos. Outra coisa que ela faz para conseguir se manter sã é correr, quantos quilômetros forem necessários, para levar tudo o que for ruim embora e ter algumas horas de paz. Quanto a Josh, ele mantém todos afastados com o objetivo de não se deixar importar o bastante com alguém a ponto de sentir sua perda. Os dois vão se conhecendo aos poucos, apesar de Nastya se recusar a contar seus segredos. E eles não admitem de forma alguma que gostam um do outro, além de não quererem que o outro se apaixone por ele/ela.

É uma história cheia de detalhes, partes de um quebra-cabeça que vão se encaixando até conseguirmos ter uma visão do todo, não apenas dos fragmentos. Há momentos em que o choro é inevitável, outros em que os risos vêm sem ser convidados, mas estão ali. É impossível não torcer para que eles encontrem uma forma de superar o que aconteceu e que continua afetando suas vidas. É impossível não querer que elas justamente deixem de ser pautadas com base no passado e comecem a ser vividas pelo presente, e não apenas quanto ao tempo presente. Ele é um presente para ela, assim como ela é um para ele, mesmo que eles não percebam isso logo de cara. São dois presentes,  de  pessoa machucada para pessoa machucada, que podem provar que é possível estar bem, estar feliz, que isso não é apenas uma história que contam por aí. 

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